Mais de uma década depois de lançar A alma imoral, o rabino Nilton Bonder apresenta um contraponto ao bestseller que foi transformado em peça de teatro: Segundas intenções, livro no qual ele dá voz ao corpo para que este se defenda dos excessos cometidos pela alma. A obra nasceu do desejo de se aproximar do comportamento humano e reconhecer nele uma natureza ambígua, que mescla verdades e mentiras para formar a essência de cada um.
aDe acordo com o rabino, enquanto a alma anseia por ser livre, o compromisso do corpo é com a verdade. Cabe a ele criticar a alma para que esta consiga administrar bem o equilíbrio. Ao longo de cinco capítulos, Bonder fala de impulsos, motivação, honestidade e consciência, discutindo conceitos como compromisso e livre-arbítrio. Para o autor, a moral ou a malícia podem se manifestar tanto no vício quanto na virtude.
Segundo Bonder, a intenção é produzida no presente e interfere na qualidade de ações e reações. E nela, o ser humano se revela e ganha identidade. Desta forma, conforme nos tornamos mais responsáveis por nossos atos, aumenta nossa capacidade de nos culpar ou desculpar, bem como de perceber os motivos que nos levam a fazer algo. Quando avaliamos negativamente nossas atitudes, nos sentimos culpados. Caso o balanço seja positivo, o sentimento é de realização.
Nossas segundas intenções, então, revelam o impulso dentro do impulso, o que quereríamos por trás do desejo. Bonder alerta que é preciso tomar cuidado com essas segundas intenções: sua função é administrar o desejo e a vergonha em um único momento, mas não passam de imagens e representações. É preciso tentar fazer com que voltem à condição de primeiras intenções, permitindo que a consciência recupere seu potencial criativo. Para o rabino, a verdadeira essência da vida está no uso e não na posse.
“Há purezas que são devassas e há depravações que são santas. Há naturalidades que são falsas e há invenções que são originais. Tudo dependerá de onde estiver a intenção, no seu lugar de primeira ou de segunda”, diz o autor, que convida os leitores a se reconhecerem em suas segundas intenções. Ao aproximarmos o corpo e a alma, somos capazes de eliminar os efeitos colaterais da inveja e do assédio, descobrindo as dimensões do amor, da tolerância, do educar e da esperança. Será decretado, então, o fim da vergonha.
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O século XIX no Brasil foi o século do café. Foi ele que deu origem a poderosos clãs estabelecidos no interior fluminense, na região conhecida como Vale do Paraíba do Sul. Mas, em meio ao poderio cafeeiro, fortemente dependente da mão de obra escrava, sopravam os ventos da modernidade, da onda abolicionista, da morte do Império e do nascimento da República. Terras proibidas – A saga do café no Vale do Paraíba do Sul, da escritora e professora da área de Letras da UFRJ Luiza Lobo, é justamente um mergulho na trajetória de ascensão, apogeu e decadência das grandes fazendas do ciclo do café.
O romance conta a saga da família de Francisco José Teixeira Leite, o barão de Vassouras. Empreendedor nato, construiu um império cafeeiro e um clã poderoso e influente, auxiliando no crescimento das cidades do Vale do Paraíba, particularmente Vassouras, e adquirindo grande importância política. No entanto, sua família estava fadada a sofrer com tragédias e mortes. Ele testemunha todas elas. Seria a maldição lançada por Manoel Congo, escravo que lidera uma rebelião nas fazendas de café da região, mas é capturado e condenado à morte?, perguntam-se os moradores da Fazenda Cachoeira Grande, onde viveu o poderoso barão.
Ancorada em extensa pesquisa histórica, Luiza Lobo usa a família do Vale do Paraíba do Sul – também conhecido como Terras Proibidas, região a qual ninguém podia ter acesso para que fosse impedido o contrabando de ouro encontrado em Minas Gerais – para ilustrar as intensas mudanças pelas quais o Brasil passou na segunda metade do século XIX. Não apenas mudanças políticas e econômicas, mas também, e talvez impulsionadas por elas, mudanças de comportamento, como o namoro da sobrinha do barão com um então abolicionista chamado Joaquim Nabuco, motivo de alvoroço na família.
Paralelamente ao cenário social, político e econômico, Francisco José Teixeira Leite passa a enfrentar um longo martírio pessoal: perde a primeira mulher, a prima Maria, para um mal súbito; casa-se em seguida com outra prima, a jovem e voluntariosa Ana, que lhe tira a paz em todos os momentos com seus caprichos; amarga dissabores com os problemas mentais de um dos filhos; perde a outra filha, Ambrósia, em pouco tempo; e o destino de Eliza, sua neta, também só lhe trará dor.
Terras proibidas narra a saga do impávido barão de Vassouras, um homem que atravessou o século cada vez mais só e isolado até uma época que já não teria lugar mais para ele, e retrata assim uma parte importante da história do país.
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A trama é sobre espionagem, conspiração e suspense. Tem uma leve pitada de romance, consumido ao longo do texto em fogo brando, tendo o cenário da Segunda Guerra Mundial, mais especificamente da Suíça, como pano de fundo. Aliança improvável narra as aventuras de um piloto americano baseado na Inglaterra que tem por missão fotografar os campos inimigos em seu De Havilland “Mosquito”, que, apesar de excelente máquina, não é muito eficaz contra as balas inimigas. A aventura tem início quando, numa missão de rotina, seu navegador e fiel companheiro avista algo absolutamente incomum entre as nuvens. A despeito das habilidades formidáveis do piloto, o avião é derrubado por caças alemães que faziam a escolta do protótipo de uma arma ultrassecreta, que de fato existiu, o Horten Ho IX V3.
Assim que eles caem, tratam de esconder a câmera com o filme, pois sabem que os alemães farão de tudo para recuperá-lo. Mas, depois da captura, o navegador é internado em estado grave num hospital, em lugar desconhecido. A partir de então, o piloto só pensa em como fugir, resgatar o companheiro ferido e entregar o filme para o seu governo, o mais rápido possível. Porém, acaba por envolver-se numa conspiração muito maior do que jamais poderia imaginar.
Como num jogo de xadrez, Ross lança mão de estratégia e sagacidade para conduzir a trama, que envolve ainda uma desconfiada viúva que descobre que os suíços estão lavando dinheiro para o reich e tenta, sem nenhuma experiência em assuntos de inteligência e espionagem, reunir as provas necessárias para desmascarar a situação, enquanto os soviéticos, também conhecedores de toda a conspiração, querem usar essas informações como chantagem para barganhar a seu favor um cessar fogo e selar um novo acordo secreto de paz com Hitler, enviando um oficial da frente de combate para o país.
Com ação eletrizante e personagens cujas vidas se cruzam de forma intensa e surpreendente, Aliança improvável guarda guinadas na trama e revelações intrigantes ao longo de suas páginas. Além disso, propõe uma charada logo no título, afinal, a que aliança o autor estaria se referindo? Não se sabe se é uma referência aos alemães e suíços, aos russos e alemães, ao oficial russo e o piloto americano, ou entre este e a viúva do seu melhor amigo e mentor. A interpretação definitiva ficará a cargo do leitor.
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Não é todo dia, nem mesmo para todo o vivente, que surge a oportunidade e o privilégio de conceder uma entrevista – oportunidade inédita no meu caso -; de poder falar, compartilhar um pouquinho que seja sobre o que se faz, como se faz, o porquê de se fazer e principalmente, sobre as agruras e, porventura, as doçuras da profissão. Este presente me foi oferecido pela Roberta Fraga, que além de escritora, possui um blog interessantíssimo, chamado Peculiarizar.
Depois do susto inicial, me senti muito honrado e profundamente grato. Sei que a arte, de maneira geral, provoca um certo fascínio em algumas pessoas. Há uma áura de glamour e mistério em torno do artista. Mas acaba aí. Quando cai o pano, a realidade é infinitamente mais dura do que se imagina! Exceto para um número bem pequeno de obstinados que possuem, além do talento, capacidade empresarial e administrativa – particularidade raríssima entre artistas. Para os diletantes ou, para um número ainda mais reduzido de gênios, que tiveram a sorte de ter o seu valor reconhecido em vida. Ou seja, a grande maioria padece mesmo da falta de reconhecimento, dignidade e respeito.
Quase todo mundo aprecia a arte, mas torce o nariz quando tem de lidar com quem a produz. Começando pelos pais e parentes, salvo raríssimas e privilegiadas exceções, que ainda preferem ver seus filhos como médicos, engenheiros, ou advogados. Depois, atravessando por um sistema de ensino e formação, muitas vezes deficitário, confuso e pouco animador. E finalizando, tendo de lidar o resto da vida, com outro sistema maior, pior, bem mais insensível, injusto, despreparado, burrocrático e muito pouco, ou quase nada, profissional.
Parece até que o artista é um mal necessário! Tolerado apenas por produzir alguns momentos de entretenimento e distração…
Não devemos nos esquecer e refletir: a classe artística, em sua esmagadora maioria, continua à deriva, sem a devida atenção e o respeito que merece. Permanecendo boiando, numa jangadinha de juncos mal juntados.
E tem o outro lado…
Ainda para muitos, quando pensam em vida de artista, descrevem aquela ingênua e fulgurante imagem onírica, onde pintores, escultores, atores, compositores, intérpretes ou escritores; aqueles que alcançaram a fama, consequentemente vivem nababescamente e sem preocupações. Não é bem assim… Tem muita gente que conquistou o sucesso em algum momento da carreira e depois amargou o esquecimento, o ostracismo e a pobreza, por falta de uma previdência específica voltada para muitos desses segmentos. Os casos são inúmeros e cruéis. Mesmo a realidade dos que mantêm a fama merecida e a duras penas, não é isso tudo que vulgarmente se imagina.
Por isso insisto e ainda tenho fé de que um dos caminhos, mesmo que seja mais parecido com uma picada aberta na mata, é o da informação – eita palavrinha usada e cada vez mais abusada, essa! Quem tiver um mínimo de bom senso e um pingo de boa vontade, entenderá um pouco melhor, que a vida de artista, se é um privilégio, um dom superior, não é apenas um caminho que se escolhe. É antes de tudo, uma vocação involuntária. Em muitos casos, até indesejada. Uma vida inteira dedicada a um trabalho, a uma obra, sem nenhuma certeza ou garantia de reconhecimento e sucesso.
Falando em informação, vem logo grudada a tal da Internet! Ferramenta maravilhosa de divulgação, de resgate e de inumeráveis possibilidades de expressão, que vem revelando, a cada dia mais e mais, talentos em todas as áreas artísticas! Talentos que outrora, digo, anteontem, estariam totalmente excluídos e absolutamente impossibilitados de se expressar, pelos canais ordinários de comunicação.
Por isso, agradeço mais uma vez e para sempre à Roberta, por essa oportunidade generosa e maravilhosa que me proporcionou.
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