Pintura de rodapé

Há muito mais coisas entre a tinta e a tela do que julga a nossa vã filosofia! Shakespeare que me perdoe o trocadilho bobo, mas é a pura verdade. Pensava que fosse só pintar e pronto! Quando olhei minha primeira tela em branco, levei apenas alguns momentos para rabiscá-la e logo depois começei a tacar tinta…

Ao invés de pinturas, consegui ilustrações feitas a óleo, em telas de linho ou brim. Só depois de muita leitura, visitas ao Museu de Belas Artes e, principalmente, de domingos inteiros passados no atelier de Oscar Palácios, foi que aprendi o quão errado estava a respeito.

O básico era estudar as técnicas: saber preparar uma tela antes de pintar, para o grafite do lápis não se misturar com a tinta. “Queimá-la” com uma aguada de sépia, para tirar o branco do pano e assim criar um “médio”, que ajudava muito a “descobrir” as luzes e sombras depois. Os antigos mestres, quase sempre construíam as sombras com as tintas bem diluidas e as áreas iluminadas, com elas mais pastosas, às vezes quase secas. Isso dava um resultado impressionante!

Geralmente gostava de definir o volume do claro/escuro antes de colorir, e ainda trabalho assim até hoje, mesmo no computador. O óleo é muito plástico e permite que se faça quase qualquer coisa, menos que se abuse dele, se não vira lambança. As camadas também são muito importantes, por isso percebi que ao pintar uma paisagem, era mais correto começar pelo que estava mais distante e vir aproximando até o primeiro plano, que ficava por último. Ou seja, deveria haver uma ordem, uma progressão, que pode parecer simples a princípio, mas que demandava um pensamento estratégico, como num jogo de xadrez, antecipando mentalmente as etapas a serem executadas.

Além disso, existia outro fator importante, talvez o maior. Para que pintar? Ou por quê? Arte é expressão, mas não tem algo mais? Mesmo conhecendo quase todas as técnicas e tendo o melhor material à disposição, isso não fará de ninguém um  verdadeiro bom pintor. No máximo um bom e competente reprodutor de outras pinturas. O artista, assim ouvi, deve criar uma linguagem própria. Isso não acontece da noite para o dia. É como aprender a ler e escrever, literalmente. A ler o que vai em sua alma e escrevê-la em suas telas. É necessário buscar um caminho pessoal. Um passo de cada vez. Produzir experiência com tentativas e erros. Avanços e recuos. Fazer muitos estudos. É óbvio que é muito difícil aprender sozinho. As referências, as fontes, são importantíssimas. Um mestre é fundamental! Oscar Palacios fez isso por mim. Sua vida era um sacerdócio dedicado à pintura. Ele respirava arte por todos os poros e era basicamente seu único assunto, pois tirava dele lições para todos os outros. Ao falar de pintura, falava também da vida, dos relacionamentos, de política, do amor e até de futebol! Filosofias de cavalete. Sua veneração era tão grande e tão verdadeira, que me imprimiu um respeito semelhante. Foi então que percebi, mais uma vez, que não sabia mesmo de nada.

O propósito vem primeiro, antes do dom e do talento. Logo depois segue o assunto sobre o qual iremos pintar. Assim ouvi do meu Mestre.

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