Ilustração: o que é e para que serve?

O que é e para que serve?

Aprendi a fazer esta pergunta com quem me ensinou o mais importante sobre ilustração e muitas outras coisas. Elcio Mario Noguchi. Um dos melhores diretores de arte, designer e ilustrador que conheci, quiçá deste país. Quando nos encontramos, eu era apenas um garoto, estagiando há poucos meses na então chamada Salles Interamericana de Publicidade. Sabia apenas que queria muito aprender “tudo” sobre ilustração. Essa foi sua primeira pergunta: “Como pode querer fazer alguma coisa, se não souber o que ela é e para que serve?” Pois é. Sabia que gostava de desenhar, que estava fascinado pelo mundo novo que descobrira e estava disposto a fazer parte dele. Acreditava que sabia alguma coisa e logo de cara aprendi que não sabia absolutamente nada. Zero. Tinha algum talento, alguma habilidade, mas era muito pouco ou quase nada.

Outro grande Mestre, que me ensinou muito também nos primeiros anos, foi o grande ilustrador Salvio Negreiros. Primeiro dia, primeira coisa: “Esqueça esse traço, é um lixo! Aprenda a fazê-lo contínuo e não rabiscado como se fosse um sismógrafo. Isso não presta!  Não é profissional.” Caramba, como foi difícil de enfiar isso na cachola! Seu traço era magnifíco! Elegante e seguro. Observava-o durante horas sem acreditar que fosse possível algum dia chegar perto daquilo.

Pouco tempo depois, percebendo esse meu desânimo, Noguchi me disse: “Quer realmente aprender a fazer isso? Então tem que produzir 400 desenhos por dia!” Eu ri. Ele não. Era sério. 400 desenhos por dia! A todo tempo e em todo lugar. Em pedaço de papel, guardanapo, jornal, o que fosse. Qualquer coisa. Mas tinha que treinar o tempo todo. Era impossível! Sou muito cabeça dura, mas acabei me convencendo por força das evidências. E isso era apenas a pontinha de fora da linha solta no rolo. Desenhar não é sinônimo de ilustrar, como pode parecer lógico em princípio. Era preciso entender o conceito da coisa primeiro. “O que é e para que serve”?

Naquela época, se não me engana a memória, a Salles era a nº 3 no ranking das maiores agências do Brasil. Ocupava 2 andares do prédio 200 da Praia do Flamengo. Tinha uma estrutura gigantesca se comparada à das atuais. Havia um completo estúdio fotográfico, com fotógrafo empregado e um laboratório de última geração. O setor de RTV parecia quase com uma ilha de edição. Um estúdio de montagem de layouts e arte-finais equipadíssimo. Todos os departamentos que uma agência atual possui, mas com equipes bem mais numerosas. Todos funcionavam em complexa integração dinâmica. Sem internet nem celular!

Foi ali, durante 5 anos e meio que aprendi a responder, em parte, aquela pergunta. Não se sonhava com a computação gráfica. Tudo era feito à mão e muitas vezes, nos casos das apresentações de campanhas, de forma artesanal. Os layoultmen eram artífices de primeira. Muitos textos ainda eram escritos à mão e se usava muito o aerógrafo. Cada prancha era montada com profundo esmero e precisão, assim como as pastas onde as campanhas eram levadas. Se produzia de tudo ali. Pelos melhores dentro de suas áreas. Você tinha de ser bom mesmo, não dava pra enganar!

O estúdio era chefiado pelo Arnaldo Mainardi, com quem aprendi a importância da proficiencia no acabamento caprichoso em todo o processo, desde o mais simples até o mais rebuscado trabalho.

Por que estou dizendo tudo isso? Porque sem entender, jamais poderia aprender sobre ilustração! E ela estava muito presente naquela época. Claro que a fotografia já estava bem difundida e era sofisticadíssima também. Mas para algumas outras coisas, como produção de layouts para apresentação aos clientes, storyboards, muitos tipos de anúncios de revistas, cartazes e outdoors, invariavelmente se usava a ilustração. Dependendo da importância da campanha, eram chamados ilustradores de peso para executa-las e só o seu nome no trabalho, já denotava status.

Foi assim que conheci os FERAS, como Mello Menezes, Benício e Nilton Ramalho. Sempre terei profundo respeito e admiração pelo nível técnico que eles atingiram. Verdadeiros MONSTROS SAGRADOS! Para mim, eram ETs. O Mello foi o único que tive o privilégio de ver trabalhando pessoalmente. Fazia “manchas” com incrível rapidez e perícia. Quando vistas no começo, parecia impossível que dali sairia alguma coisa inteligível. Então, logo depois, ao que me parecia e ainda parece mágica, surgia uma arte magnífica e bem detalhada. Sem “lambeção”. Coisa de louco, gênio, sei lá.

Nunca me esquecerei também de uma ilustração do Maracanã feita pelo Benício. Onde haviam tantas pessoas perfeitamente construídas e com tantos detalhes, que me pareceu impossível ter sido realizado por uma única pessoa, numa única encarnação! Outra que me deixou bestificado ad eternum, foi para uma campanha da Pepsi, feita pelo Nilton Ramalho. Era um casal. As gotas de suor, o panejamento das roupas, pele, etc. Tudo lindo. Capricho em cada mínimo detalhe. Perfeito!

Só então, depois de muito ralar e ralar, ver, ouvir e ouvir, ouvir outra vez, observar e perguntar àqueles profissionais altamente qualificados e comprometidos com sua arte, aprendi o conceito. Ilustração seria dignificar uma idéia, elevando-a ao patamar da excelência, e serviria para beneficiar a compreensão e identificação com a mesma. Sem querer ter a arrogância de dizer que esta é a melhor resposta, ao menos me serviu de ponto de partida. E tenho buscado me basear nela em cada trabalho que realizo. A mais correta e que poderia ser definitiva, o Noguchi nunca me disse…

 

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