- Preâmbulando.
Todo bom profissional entende que é de fundamental importância manter-se atualizado, estudando e pesquisando, continuamente, novas técnicas, tecnologias e procedimentos. À medida que os anos de experiência vão se acumulando, isso se torna cada vez mais relevante, evidente e crítico. Não é nada incomum, o incáuto artífice, com mais de 15 anos de profissão, cair numa armadilha, escondida bem de baixo de um suposto e ilusório status quo. A vida útil de um profissional é extremamente dinâmica, veloz e muitas vezes curta. Principalmente, se levarmos em conta que uma pessoa com mais de 40 é considerada velha para a maioria dos mercados. Num clicar de mouse, já virou folclore, lenda ou objeto de prateleira. O estilo ficou datado, se tornou obsoleto e, o que é pior, sem perceber de onde veio o trem que o atropelou, enquanto seguia contando, alegre e distraidamente, os dormentes na linha… O resultado funesto, no entanto, é real. Os trabalhos começam a minguar, os profissionais que te conheciam vão sumindo – a maioria deles, substituidos pela geração mais nova, que não faz a menor ideia de quem você é, ou dos seus feitos e está comendo com farinha, o prato que sempre achou garantido na sua mesa – a menos, é claro, que você seja um dos “extra-classe”. Aqueles que se tornam referência e fazem parte de uma elite, que se conquistam estabilidade financeira e reconhecimento público, é com todo o mérito. Talvez, esse tipo de problema não incomode tanto, talvez, não sei… Absolutamente, não é o meu caso.
- Alguns fatos.
Se não servirem como atenuantes, pelo menos explicam, em parte, o tamanho do iceberg que tenho contornado com o meu barquinho.
É verdade que, durante alguns anos, andei tangenciando os caminhos da minha profissão – diria melhor se dissesse que andei tropeçando, rolando e ralando, até virar carne moída! A justificativa para esses desvios tortuosos foi a pura necessidade financeira. Precisava, urgentemente, de trabalho. Por isso, fui me meter com a manipulação de imagens e “o incrível mundo da fotografia e seus fotógrafos maravilhosos”! Aprendi com eles, na unha e na marra, com quantos pixels se salva uma imagem! Sofri que nem um boi ladrão, seja lá o que isso queira dizer. Entretanto, seria tremendamente injusto da minha parte não reconhecer o quanto me desenvolvi profissionalmente e que, hoje, possuo um bom conhecimento de luz, composição, técnicas e efeitos do Photoshop, texturização, gerenciamento de cores etc. Tudo agregado àquela época e impensável de adquirir de outra maneira, até onde eu sei. Portanto e apesar de tudo, aprendi a lição mais importante e valiosa de todas: sou, de fato, um ilustrador e, por mais que esse título cause muitos narizes torcidos, um artista. Gostem ou não, sou eu que tenho de me virar com isso!
- Moral da história vocacional.
Quando for pensar em mudar de profissão, mesmo que relacionada à sua área, simplesmente porque a dita cuja não anda sendo suficiente nem satisfatória, por alguma razão cósmica, financeira ou partidária, antes de se decidir, experimente fazer outra coisa qualquer fora do seu expertise, algo que não conhece, não entende e muito menos domina, pra ver o que é bom… O que é bom mesmo, de verdade, é buscar melhorar sempre, naquilo que você já sabe fazer bem! Ou seja: reinvente-se de tempos em tempos, troque de pele, mude de casca, até de país se for possível, sei lá, mas dê teu jeito!
- De volta ao que interessa.
Lição aprendida, ainda me recuperando do atordoamento traumático, girei o leme até ficar de costas pro vento. O que faltava agora era avaliar minha posição aproximada, para poder calcular o tempo a recuperar. Não foi fácil. Infelizmente, no caminho, fui acometido pelo primário, porém péssimo defeito da arrogância aguda. Devido talvez ao longo período de exposição do diafragma… (!) A consequência direta foi estatelar-me de cara naquela velha armadilha, descrita lá em cima. Quando o gongo do bom senso e autopreservação rebentou nos meus tímpanos encerados, consegui ouvir o ótimo conselho, muito sábio por sinal, do meu próprio filho, Ramon Saroldi - explico: por obra e graça da vontade suprema, contrária à minha, que de suprema não tem nada, ele hoje navega pelos mesmos mares que seu velho pai e, antes deste, que o seu bisavô – suas palavras foram, quase exatamente, estas – “pai, você passou muito tempo sem ilustrar, só manipulando… Precisa ver o que os caras estão fazendo atualmente, principalmente lá fora. A ilustração mudou muito… Você manda bem, mas o teu trabalho ficou datado” – como se pode imaginar, não foi uma coisa de fácil digestão, porém, de rápida assimilação prática. Principalmente quando escutamos do próprio filho, com todo o conhecimento de causa de quem vem, com o voraz apetite da juventude, comendo com farinha, enquanto o ancião aqui sonhava em berço explêndido, com o paraíso do maná perdido.
- Redescobrindo os Mestres.
No entanto, sou muito grato por possuir um dom. O de reverenciar, com muito respeito, humildade e admiração, àqueles que sabem mais do que eu. Infinitamente maior do que um pretenso talento artístico, foi o que sempre me proporcionou aprender e, o mais importante, saber diferenciar os verdadeiros dos falsos mestres. Talvez por isso, estes, os primeiros, nunca me faltaram! Desde o meu avô, Ruy Cezar dos Santos, passando por Salvio negreiros, Arnaldo Mainardi, Élcio Mario Noguchi, até Oscar Palácios. Seus exemplos e ensinamentos, carrego-os comigo nas entranhas. Todos foram fundamentais na minha formação profissional e de caráter. Agora, no entanto e apesar de tudo o que aprendi com eles, percebo, pelos fatos incontestáveis, a necessidade de continuar aprendendo com os Mestres da aurora! Os caras que estão escandalizando as “menininhas” dos olhos. E eles são muitos, caramba… Está chovendo ilustrador fera no mundo!!!
Como esse texto já se alongou absurdamente, peço desculpas, porque me empolgo sempre que falo dessas coisas. Por isso, não irei desfiar uma longa lista com os fantásticos ilustradores que tenho visitado pela Internet, dos maravilhosos tutoriais que me deixaram de queixo caido e com os olhos esbugalhados, mas posso colocar algumas referências que julgo, pessoalmente, indispensáveis.
Alfabeticamente:
Damaggio • Feng Zhu • Massive Black • Michaelo
- Gran finale.
De todos os Feras mencionados acima, por critério absolutamente pessoal, de gosto e empatia, destaco apenas um. Talvez, pelo reconhecimento inequívoco, dele possuir uma filosofia que sempre me foi ensinada e que, praticamente, se tornou um axioma pra mim. O que demonstra, com evidência, que se a linguagem difere, se se moderniza, o conteúdo da mensagem é sempre o mesmo.
“Pratique, pratique, pratique e depois, pratique! Observe a natureza, a vida que te rodeia, com extrema atenção e então, pratique e pratique mais, mais e mais…”
- Feng Zhu, é o nome do homem!
Além de ficar estarrecido com o seu talento genial, fiquei ainda mais admirado com os seus magníficos tutoriais! Dono de uma didática simples e natural, que só os grandes Mestres detêm – ao ponto de um ignorante da língua inglesa como eu, conseguir entender uns 90% do que está dizendo! – Possui uma escola em Cingapura: a FZD School of Design e uma estrutura de primeiríssimo mundo. O que mais me impressionou, porque, como brasileiro, infelizmente, não estou nada acostumado com essas coisas, é que seus tutoriais, além de GRATUITOS, são completos. Ou seja: ele não esconde nada, não há truques, não interrompe o vídeo pra você não descobrir sua conclusão… E, atenção, os cursos ministrados lá são caros, pelo menos para os nossos padrões. Mas pode ter certeza, valem cada cent – se tivesse recursos, não hesitaria em me matricular, estudar e aprender do zero que fosse, o máximo que pudesse, com ele.
- Concluindo, antes que algum aventureiro de saco cheio, o faça.
Tenho visitado o site regularmente, buscando absorver, da melhor forma possível, um pouco da arte, técnica, metodologia, disciplina e inteligência sempre grandiosas, generosas e presentes, em todos os Grandes Mestres. Creio eu, que sejam assim, por estarem absolutamente seguros do verdadeiro valor do seu talento e, por isso, não cultivam o medo dos enganadores, “auto-marketeiros”, exploradores e dos espertos - estabelece-se em mim, cada vez mais, a certeza de que o que nos separa do “primeiro mundo”, não é tanto o dinheiro, nem recursos tecnológicos, talento, muito menos capacidade; mas sim, uma percepção de comportamento, de comprometimento e de mentalidade. A ética, a honestidade e a transparência cristalina nas relações, nos atos e intenções, não são apenas virtudes – por aqui, leia-se: defeitos dos otários e ingênuos – de pessoas “boazinhas”. São, antes de tudo, atributos essenciais dos povos mais cultos, inteligentes e sábios, por isso, mais aptos a alcançar o ápice do seu potencial profissional e pessoal. São todos aqueles que tornaram-se conscientes de um modo de vida simbiótico, onde não há lugar para conchavos, improvisações, gatilhos, “roubadas de jogo” e incompetências. Traduzindo para os conterrâneos: onde o jeitinho para levar vantagem em tudo é a pior desvantagem.
O caminho é muito longo, tortuoso e penoso mesmo, não há outro. Os atalhos fáceis, só fazem inchar o estômago de vento e o que sempre senti é uma bruta fome de verdade!

















